Elitismo em pele de progresso1

       

           Desde a época das revoluções burguesas o homem vem investindo em avanços tecnológicos, pois eles facilitariam a vida das pessoas. Nos dias atuais, fica claro o papel e importância de tal progresso. Mas até que ponto a tecnologia é acessível a todos? Seria ela um grande passo para melhores condições de vida da população mundial ou somente um fator para acentuar a desigualdade social entre os povos?

            Segundo Freud2, quando se viveu muito tempo numa civilização específica fica-se tentado a indagar qual o destino que a espera e as transformações pelas quais irá passar. No caso de nossa sociedade capitalista ocidental, percebemos que as idéias sobre o futuro “consistem em projeções das tendências tecnológicas atuais” 3. Sendo assim, a ânsia pelo lucro, buscada através de novos meios de produção, de telecomunicações e, até mesmo, da medicina, ou seja, do progresso em geral, torna-se mais importante do que os problemas sócio-econômicos já existentes.

            É notória a segregação social que há no mundo. Então, poderíamos pensar: de que adianta o homem tentar alcançar um elevado nível tecnológico se a maioria das pessoas não poderá dispor dessas novas descobertas?

            Tal problema tem seu início há muito tempo, desde o princípio da organização social. E, conforme Simmel4, foi mais acentuado no século XVIII quando começou a haver a exigência de uma especialização funcional, que causou o nivelamento da população. Isso tem seus reflexos propagados até os dias atuais. Só os bem preparados, que tiveram condições de estudar em bons colégios e faculdades, podem usufruir dos benefícios da modernidade, sendo muito difícil a mobilidade de classes.

            Tudo isso aliado ainda ao comodismo de alguns, que acham que não devem fazer nada para melhorar suas vidas, progredir, faz com que o nosso sistema não mude. As pessoas se acomodam, pois a maioria pensa que nossa sociedade não tem solução. Segundo Geertz5, o indivíduo é o reflexo da cultura na qual está inserido e, como não existe natureza humana sem cultura, a população acaba seguindo os costumes da localidade onde vive, tornando-se impossível fazer algo para mudá-la.

            Porém, devemos tentar resolver nossos problemas atuais. Precisamos incluir os mais necessitados na sociedade, para que todos possamos utilizar os recursos que conquistamos com tanta dificuldade, e não só a elite. Senão, de que vale ter tantas facilidades se todos não as podem utilizar? O progresso é necessário, mas também é preciso que pessoas o tornem útil.

 

Isabelle Saleme Fernandes

2000.2

NOTAS: 

 

  1. Referente ao ditado popular: “lobo em pele de carneiro”.
  2. Freud, Sigmund – O futuro de uma ilusão In: Obras completas de Sigmund Freud: Rio de Janeiro. Ed. Estandard Brasileira, 1996.
  3. Rorty, Richard – O futuro da utopia.
  4. Simmel, Georg – A metrópole e a vida mental – In: O fenômeno urbano, org. Velho, G: Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1967.
  5. Geertz, Clifford – A interpretação das culturas: Rio de Janeiro. Ed. Guanabara, 1978.