Alta cultura e democratização do
saber polemizam lançamento de livro
“A tecnologia e o anti-elitismo representam ameaças mortais à alta cultura, esse é o porquê de ir contra a ‘democratização’ do saber”, explicou ontem o intelectual George Steiner durante o lançamento de seu novo livro, “Nenhuma paixão desperdiçada”, no Rio de Janeiro. Para ele, que não acredita num processo democrático capaz de levar boa cultura para todos, “é a existência de uma minoria culta, graças à sua obsessão com a transcendência, que as coisas da alta cultura são preservadas e alcançadas para a geração vindoura, também minoritária”. Formada pela reunião de 21 textos do autor, a publicação é uma “reflexão sobre as transformações do papel da literatura e sobre o sentido da leitura séria numa época em que os teóricos da linguagem se divertem desconstruindo textos e contextualizando os valores clássicos”.
Mostrando um sentimento de nostalgia de uma época em que, segundo o autor, menos pessoas liam, mas sabiam ler em profundidade; Steiner faz, em seu um livro – publicado pela editora Record – uma crítica à sociedade de consumo igualitária e populista, à banalização da cultura e à deformação da vida acadêmica, principalmente no país onde este francês foi criado. “O ensino escolar nos nossos dias, em especial, nos Estados Unidos, não passa de uma amnésia planejada”, avaliou.
Sem desmerecer a opção feita pelos norte-americanos pela busca do sucesso pessoal e de talvez estarem mais próximos das ambições mais gerais da humanidade, o intelectual coloca o “american way of life” como intrinsecamente hostil à alta cultura. Segundo ele, os Estados Unidos são como um imenso arquivo da cultura ocidental, sem porém conseguir produzir nada de original e significativo. “Nem os diversos recursos – bibliotecas, museus, livrarias, cinemas, óperas, sinfônicas e demais espaços culturais, espalhados por quase todo o território americano – fizeram com que a cultura americana chegasse aos pés da alta cultura européia. A América assumiu a função de ‘arquivo, catálogo, depósito, guarda-tudo’, só conseguindo, até agora, reproduzir, mas não superar a alta cultura européia”, afirmou.
Para Steiner, a ausência de um pensamento desligado dos interesses materiais diretos é um dos fatores para a pobreza intelectual americana. Não há nos Estados Unidos, disse ele, o que se possa identificar como uma comunidade de pessoas racionais, na qual prevalece a argumentação filosófica explícita e cujo motor da vida consciente é o pensamento abstrato.
Isabelle Saleme
2002.1