Saudade

 

Sabe aqueles dias em que o chão parece simplesmente sumir de baixo dos seus pés? Você não sabe o que fazer ou dizer... Os pensamentos vêm e vão e você nem percebe... Então: Clara sente-se exatamente assim! Queria poder parar o tempo para respirar e levantar a cabeça... seguir em frente – ao menos, tentar.

Seus sentimentos fluem rápido, porém de modo mais intenso do que nunca. Amor; dor; tristeza; amargura; angústia; insegurança; até mesmo alegria; e... saudade. Saudade: expressão existente apenas na Língua Portuguesa. Ela acredita ser a única pessoa capaz de compreender seu significado.

Fecha os olhos e não consegue dormir. As lembranças do dia em que se conheceram não largam sua memória, embora faça força para esquecer. O encontro havia sido em uma locadora de vídeo, no meio da seção de “lançamentos”. Eduardo realmente não se parecia em nada com o namorado dos sonhos de Clara, mas seria uma boa alternativa.

Inquieta, levanta da cama e olha pela janela do quarto. Vê o movimento sempre apressado da cidade. A população cresce a todo momento nos grandes centros urbanos, mas as pessoas se encontram cada vez mais solitárias. São prisioneiras de seus direitos e deveres. Não conseguem parar e pensar um pouco sobre suas próprias vidas. Acreditam ser livres. Se elas soubessem...

Tudo bem, Clara também foi assim. Tempos atrás, sua rotina era totalmente organizada: estudava; trabalhava; até se divertia com os amigos, nas horas vagas... Mas, aí, ele apareceu “bagunçando” tudo que estava no lugar. Foi o ano mais feliz de sua vida.

Nunca gostou de ditados populares, mas um se repete em sua mente: “tudo o que é bom, dura pouco”. A cada momento, pensa no que eu devia ter dito ou feito enquanto era tempo... quando ele ainda estava lá. Os olhos cabisbaixos de Clara não disfarçam a tristeza que sente: não aceita saber que está novamente na multidão solitária de São Paulo.

Dizem que só se dá valor às coisas quando se perde. Ela comprovou isso na carne. Com Eduardo, foi sua coragem, sua esperança, seus sonhos, sua vida.

Por mais que soubesse que as coisa não andavam muito bem, não imaginava que pudesse acontecer isso – ou, talvez, não queria aceitar esta possibilidade. Mas, e agora?? O que fazer? Como acordar e não dar “bom dia”? Ir dormir sem dizer “boa noite”? Como viver? Para quem contar seu dia? Com quem dividir as coisas boas e, até, as ruins? Para quem vai telefonar na hora do almoço só para dizer “oi”?

Mas espere: há o lado positivo da história. Ela poderia deixar seus relatórios espalhados pela mesa do escritório, ouvir música no mais alto volume, assistir o canal que quisesse na televisão, demorar o quanto precisasse na escolha da roupa que usaria...

É, estava na hora de começar a reorganizar a vida sem Eduardo. Já estava cansada de dividir tudo com alguém. Não tinha mais segredos. Não tinha mais privacidade. É tempo de voltar o olhar para si mesma: crescer no trabalho, voltar para a faculdade, reencontrar os amigos... Às vezes, a solidão é importante: ajuda a crescer, a pensar...

Sempre muito racional, nunca deixara seu coração atrapalhar seu raciocínio e suas ações. Não poderia ser diferente agora. Mas era! Por que será que seu coração não obedecia  às ordens de sua mente mais? Ele teimava em impôr sua vontade...

Não!!! Há decisões que precisam ser mantidas, por mais difíceis que sejam. Os dias demoram para passar. Ela sente cada um deles como uma batalha contra si mesma. A luta parece não ter fim, mas ela não irá desistir. Desistir? De que? De sua privacidade, ou de Eduardo? Talvez a decisão não fosse dela somente, como queria – e como sempre havia sido.

No fundo, ela deseja poder mostrar o tamanho do meu amor, mas não adianta mais: poderia gritar o mais alto possível... ele não a ouviria... ou, se ouvisse, não a responderia...

Agora, depois de tudo, ela sente sua falta.

 

Isabelle Saleme

2003.1