Proximidade oculta

“Saiba ele (o homem) encontrar a chave de sua evolução na lei que o proclama herdeiro de si mesmo e conhecerá o porquê das angústias que padece, acerca do qual não encontrou ainda nenhuma explicação que lhe satisfaça.”1

 

            A vida num mundo extremamente capitalista faz as sociedades darem muito valor ao dinheiro. Sendo assim, ao pronunciarmos a palavra herança a primeira coisa em que se pensa diz respeito ao lado material, jurídico ou psicológico. Logo, seu aspecto mais importante, o espiritual, muitas vezes fica alheio ao homem. Contudo, o presente trabalho tem como objetivo explicar um pouco este caráter, esquecido em muito, pela humanidade, mas abordado no livro A herança de si mesmo, de Carlos Bernardo González Pecotche.

            Para o autor, a herança do espírito é “a soma dos conhecimentos superiores adquiridos e das obras de bem que com esses conhecimentos realizou nas diferentes etapas da existência. É a essência dos pensamentos que presidiram cada uma dessas etapas de vida e deram à mesma um conteúdo”2.

Embora cada ser humano tenha vocações e valores próprios (sua herança espiritual), o livre-arbítrio e a independência, comuns à espécie, dão o direito, ao ser, de escolher o caminho que quer traçar em sua vida. Então, ou ele permanece indiferente à herança interna e ela fica oculta para sempre nas suas entranhas, ou extrai dela os valores, que enriquecem a própria pessoa e a toda a humanidade. Em outras palavras, toda criatura humana é capaz de alcançar sua própria herança, porém deve habilitar-se.

É certo que cada ser humano tem sua herança (biológica) impressa em seus gens, no entanto, uma parte dela fica escondida até que haja esforço do indivíduo para encontrá-la, dentro de si mesmo, no seu “acervo hereditário”, formado através das gerações anteriores; ou, até mesmo, nos feitos, nos pensamentos, nas idéias e nas palavras de outras pessoas, tidas como grandes perante a humanidade, a chamada “herança do pensamento alheio”.

            Assim como quem termina uma faculdade recebe o título de bacharel, na medida em que um indivíduo coloca-se em processo de busca de uma evolução consciente, é possível a ele aplicar a si mesmo seus ditados e comprovar sua realidade. No entanto, a herança acadêmica, como qualquer outra material, é limitada, intranscendente, pois não tem a consciência evolutiva das que levam ao aperfeiçoamento integral do indivíduo. Nesta última, o espírito (depositário da herança pessoal) absorve os valores humanos e prolonga-os no tempo, através das etapas da existência humana.

            O homem muitas vezes pensa que não precisa melhorar porque, ao morrer, tudo continuará aqui na Terra, mas há uma continuidade na progênie, acrescida da diferenciação das sementes de cada um além do túmulo. A perpetuação depende da formação de uma consciência superior, alcançada quando a alma consegue realizar seus reais objetivos em uma permanente e ininterrupta ação evolutiva.

            Ao contrário, quando o indivíduo atribui todos os fatos aos “acasos da vida” (à inconsciência), percebe-se que ao esgotar os recursos de sua própria herança, vendo que nada tem e que nada é capaz de fazer para recuperar e transcender este declínio moral, espiritual e físico, pode ser comparado a uma verdadeira alma penada.

            Depois de muito estudar, Pecotche percebe que é através da Logosofia, ciência que revela os mais recôndidos mistérios da alma humana e do mundo transcendente e universal, que o homem pode cambiar sua vida – já que o conhecimento de si mesmo é o reencontro das células mentais que se identificam e se unem por imantação da força hereditária, surgindo daí a verdadeira entidade, através da evolução da consciência, conscientemente realizada.

            Conclui-se, então, que a herança de si mesmo é algo que requer muito do ser que a almeja atingir, pois se o homem se mantiver alheio a ela, ela sempre ficará oculta a ele, ficando sem solução o grande problema da falta de sentido da vida humana. E quando a vida se encontra sem sentido, em geral, tenta-se procurá-lo externamente, sem obter nunca uma resposta favorável, já que a verdadeira solução está dentro de si mesmo. Parece incrível, que o último lugar para o qual voltamos os olhos, seja o nosso próprio interior...

Isabelle Saleme Fernandes

2001.2

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  1. PECOTCHE, Carlos Bernardo González. A herança de si mesmo. 5ª edição. São Paulo: ed. Logosófica, 1996. (Página 7).
  2. Idem. (Páginas 23/24).