Coutinho monta

filme com 37 histórias

 

            Eduardo Coutinho esteve no último dia 11 na PUC–Rio para – após a exibição de seu novo filme, Edifício Master – responder às questões dos estudantes. A produção, vencedora do Kikito de Ouro de melhor documentário no Festival de Gramado deste ano, foi gravada no Master, prédio localizado a um quarteirão da praia de Copacabana. A equipe levou uma semana para obter as 37 entrevistas que compõem uma narrativa não-linear.

Diferente dos dois últimos documentários de Coutinho, Santo Forte e Babilônia 2000, que tinham um fio que levava as falas para uma mesma direção (a religião no primeiro e a virada do milênio no segundo); Edifício Master não tem um assunto obrigatório: diante de uma câmera fixa, os moradores falam de suas experiências, alegrias, tristezas, sonhos e frustrações. Segundo o diretor, este é um de seus filmes mais “ficcionais”, por possuir elementos que “alimentam as telenovelas e os melodramas”.

 

Os personagens

 

Entre os personagens do filme há um casal de idosos que se conheceu através dos classificados de um jornal; uma garota de programa que sustenta a filha e a irmã; um ex-jogador de futebol; um porteiro desconfiado de que o pai adotivo é seu pai verdadeiro; uma jovem poetiza que se declara “sociófoba” e recusa-se a olhar para a câmera ao falar e um aposentado que se emociona ao cantar uma música de Frank Sinatra. Os depoimentos aparecem no filme quase na mesma ordem em que foram gravados. “Nesse caso, o grande ato de coragem é ser o menos artista possível, ou seja, ter um mínimo de intenções. Em documentário não é preciso inventar, basta saber receber”, disse o cineasta.

A idéia para o Edifício Master veio numa conversa com a pesquisadora Consuelo Lins, que está finalizando um livro sobre o cinema de Coutinho. “Tive um estalo durante uma conversa com a Consuelo: filmar em apenas um edifício durante apenas uma semana. Encontrar qualidade em pouca quantidade. Não queria fazer um filme sobre a classe média, pois seria algo sociológico e detestável. Aquelas são pessoas singulares, que sabem contar suas histórias de maneira rica e diferente. Se eu objetivasse a classe ou procurasse criar emblemas, seria o inferno, um assassinato simbólico”, afirmou.

 

Isabelle Saleme

2002.1