Faca de dois gumes

 

     Para entendermos a proposta de reflexão*, devemos compreender corretamente o real sentido da palavra máscara, que veio do Latim “persona” (traduzido como personagem). Ao voltarmos nossa atenção para os autores analisados no curso, percebemos que eles têm em comum a adoção de um protagonista para contar a história. Este recurso é usado pelos escritores a fim de protegerem-se durante a narrativa; possibilita um maior vínculo entre texto e leitor, uma vez que as características atribuídas a esse “novo” narrador podem criar uma identificação com o público e, ainda, tornar mais fácil o entendimento da obra.

        Porém, essas “representações” dos autores podem ser percebidos em diferentes níveis. Umberto Eco, em “O pós-escrito ao nome da rosa”, revela que o fato de falar que a base de seu romance é um antigo manuscrito beneditino – no qual Adso, já aos 82 anos, narra a história vivida por ele mesmo em sua juventude – causa um distanciamento intenso entre ele e o leitor. Neste caso, a máscara garante ao autor uma dose de proteção, pois afirma que as palavras do manuscrito não são dele.

        Já no texto de Lygia Fagundes Telles – “O menino” – o narrador e o protagonista são tão próximos que se (con)fundem. Notamos que, através do discurso indireto livre, os sentimentos do menino são perfeitamente percebidos pelo narrador, que passa tudo ao leitor. Desta forma existe uma aproximação tão grande entre personagem e leitor que é como se penetrássemos no inconsciente do menino. A ênfase nas impressões do protagonista, diante dos acontecimentos, remete a este a responsabilidade da narrativa, protegendo Lygia.

        No texto “A filosofia da composição”, Edgar Allan Poe nos mostra que a máscara utilizada por ele em “O corvo” tinha por objetivo construir um texto universalmente apreciado. Sendo assim, utilizou como eu-lírico um amante agonizando a dor da morte de sua amada. Ao utilizar a figura simbólica de um corvo, falando o que o personagem deseja escutar, o autor causou a confusão entre a voz da ave e a do próprio inconsciente do eu-lírico, encontrando-se a sede humana de auto-tortura, pois, mesmo sabendo que não terá sua amada de volta, o protagonista não se cansa de questionar o corvo – ou a si mesmo – sobre ela.

        Podemos verificar que apesar da aparente proteção, o autor pode acabar se traindo, deixando passar suas impressões pessoais pelas fendas da máscara. Desta forma, percebemos a importância de se manter a neutralidade do autor diante do texto, como afirmam Poe e Eco. Contudo, ainda que o escritor tente desenvolver uma “fórmula” para se distanciar, em algum momento ele vai evidenciar seus sentimentos ou experiências de vida em seus textos. Sendo o recurso da máscara como uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que protege, disfarça a traição.

 Isabelle Saleme Fernandes

Marcelo Magalhães

Renata Fioranelli

2001.2

*PROPOSTA:

      Desenvolver uma reflexão fundamentada sobre o tema a seguir, sempre especificando a posição dos três autores lidos (Lygia Fagundes Telles, Edgar Allan Poe e Umberto Eco) para chegar a própria conclusão.

        TEMA: “A máscara como representação do autor – proteção ou traição na escrita literária?”