Uma longa estrada

“(...) é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica(...)”1.

 

Introdução

            A cuidadosa leitura do livro Deficiências e propensões do ser humano, de Carlos Bernardo González Pecotche (RAUMSOL), me fez pensar bastante a respeito de minha psicologia e, conseqüentemente, de seus reflexos em minha vida cotidiana. O presente trabalho, então, tem por objetivo expressar o processo no qual ingressei: a busca pelo autoconhecimento. Na tentativa de aproximar o abstrato e o concreto, utilizarei algumas de minhas experiências particulares, tentando ilustrar melhor os pontos mais importantes da transição proposta pelo autor.

 

A Logosofia

Ao contrário dos ineficazes métodos que só apontam os defeitos dos homens, sem investigar a origem deles e procurar uma forma de eliminá-los, a concepção logosófica parte do estudo da própria mente, órgão promotor da vida psíquica. Logo, é benéfica por abrir uma brecha que conduz o homem ao conhecimento de si mesmo e a um processo de evolução consciente, que o leva ao verdadeiro sentido de sua vida. Desta forma, um importante passo para o despertar consciente das altas esferas espirituais é dado através do estudo de cada deficiência psicológica do indivíduo, pois quando o ser ignora suas deficiências internas, fica submisso a elas; no entanto, quando as conhece, ele torna-se capaz de combatê-las com lucidez mental.

Através da idéia de que, ao modificar as causas determinantes da configuração psicológica defeituosa do ser, é modificado também todo o conteúdo de sua vida, o ensinamento logosófico destrói a idéia de que não há possibilidade de mudança no indivíduo. Assim, as pessoas que praticam com seriedade as verdades logosóficas corrigem todos os dias o que ainda é matéria de dúvida para quem as desconhece.

 

As deficiências

De acordo com a Logosofia, deficiência é o pensamento negativo que, ao penetrar na mente humana, exerce forte pressão sobre a vontade do indivíduo e continuamente o induz a satisfazer seu insaciável apetite psíquico, influenciando-o prejudicialmente ao ponto atribuírem a ele apelidos com o nome do pensamento-deficiência que o caracteriza. Toda deficiência tem como origem um desvio experimentado pelo ser na integração de suas qualidades e o mau uso das suas condições intelectivas, psíquicas e morais. Mas, como nem sempre se manifestam da mesma forma, é necessário realizar um processo de evolução consciente para reconhecê-las.

Após detectar quais são elas, é necessário investigar mais profundamente cada uma, a fim de descobrir a sutileza com que atuam nos pensamentos que as configuram. Assim, quando uma deficiência é identificada, é imprescindível que o homem persevere em sua vigilância, a fim de surpreendê-la no instante de sua manifestação, ou até antes dela se manifestar.

As deficiências que afetam a psicologia são classificadas por RAUMSOL em 3 grupos: dominantes maiores, dominantes menores e benignas. Tal separação se dá de acordo com o seu grau de influência sobre o caráter, as inclinações, a conduta de ordem geral e os pensamentos. Para fazer esta divisão, é necessário um exame pessoal da maneira de ser e do comportamento habitual do indivíduo.

Quando se consegue selecionar um pensamento que neutralize a deficiência, é necessário exercitá-lo dentro da mente, com a ajuda dos ensinamentos logosóficos, até que ele se fortifique. Tal processo incentiva a observação sobre si mesmo e até sobre os seres que possuem o mesmo defeito. Assim sendo, a observação e o estudo permitem que o homem tire conclusões e chegue a resultados que são importantes para toda sua vida.

Para neutralizar uma deficiência, é necessário substituí-la por uma “eficiência”, anulando-a por completo, para que nenhum resquício possa causar atritos ou ressentimentos com os semelhantes. É neste momento que a antideficiência atua. Trata-se do pensamento específico que selecionamos para contrastar-se a determinada deficiência, ou seja, são movimentos mentais que anulam o despotismo que o pensamento-deficiência exerce sobre os mecanismos mental, sensível e espiritual do homem. “A antideficiência é um pensamento-polícia que deve ser instituído na mente com o objetivo de vigiar, repreender e paralisar, temporária ou definitivamente o pensamento-deficiência”2.

 

Deficiências que atingem minha psicologia

Ao me colocar disponível para localizar minhas próprias deficiências, senti uma dificuldade muito grande. Creio que isso seja natural, pois é sempre mais fácil perceber os defeitos alheios do que os nossos próprios. Depois de ler o livro e de muito pensar, percebi que as maiores deficiências de minha psicologia são: inibição, inadaptabilidade, credulidade, impulsividade e curiosidade. Tentarei explicar melhor cada uma delas, usando como exemplo minhas próprias atitudes.

Uma das mais graves deficiências que encontrei foi a timidez. Ao tirar o ânimo do indivíduo, ela o inibe na relação com os demais e diminui suas aptidões através da falta de confiança que este sente ao tentar se expressar. Isso acontece comigo quando tenho, por exemplo, que falar em público, apresentar um trabalho ou algo do gênero: ela faz meu desempenho cair, mesmo tendo conhecimento a respeito do assunto que devo abordar. Para neutralizar a inibição, o livro propõe que o ser faça uso da resolução, isto é, que repita para si mesmo, quantas vezes for necessário, que precisa ser valente e manter-se de acordo com esse novo pensamento. Embora ainda não tenha conseguido abolir por completo esta deficiência de minha psicologia, acredito que esta técnica tem me ajudado bastante na luta contra a inibição, dando-me maior confiança a cada momento.

Outro problema de minha psicologia é a inadaptabilidade, caracterizada pelo medo e a dificuldade de enfrentar situações novas. Ela obriga o ser a viver em desacordo com o contexto que o circunda, fazendo-o sofrer. Foi assim quando ingressei na universidade e fiquei assustada ao perceber que minha vida tinha se transformado: novas responsabilidades, novos amigos, novos horários... O uso consciente da adaptação é útil para bloquear esta deficiência, pois permite ao homem suportar os sofrimentos e incômodos sem perder as prerrogativas de seu gênero. Assim, tenho procurado enxergar as novas situações como algo normal da vida, e lidar com elas do melhor modo possível.

Costumo dar crédito a tudo o que ouço, sem pensar que meu interlocutor possa estar mentindo ou enganado e sem medir as conseqüências deste crédito. Por isso, percebi que possuo uma deficiência chamada credulidade. Com este estudo, aprendi que o homem não deve crer, mas saber. Isso me fortaleceu, pois descobri algo que pode me proteger contra toda ingerência estranha: o meu próprio conhecimento.

Apesar de parecer paradoxal quando olhamos para as deficiências anteriores, sofro, também, de impulsividade, pensamento veemente que provoca uma reação imediata e irrefletida da mente ante qualquer estímulo. Para acabar com esta deficiência, a contenção é bastante eficaz, pois domina a reação arbitrária, impedindo-a de se manifestar.

Dentre tantas deficiências de minha psicologia, creio ter encontrado uma na qual já estou em processo de reversão: a curiosidade. Ela é tida como problemática quando é voltada ao que não deveria interessar à pessoa, podendo estar associada à indiscrição e ao intrometimento. Como desde criança sempre fui muito curiosa, acabei escolhendo uma profissão que permite esta característica: o jornalismo. No entanto, para ser um bom profissional da área, o homem deve usar a circunspecção, antideficiência que a bloqueia; pois o jornalista deve ser capaz de perceber o que é simples curiosidade e o que é realmente interessante na busca por informação, além de ter valores éticos muito bem estabelecidos.

 

As propensões

            Propensão é o pensamento negativo que envolve a mente do indivíduo, enquanto exerce pressão sobre a vontade, para satisfazer a tendência que o particulariza. Enquanto a deficiência atua dominando o campo mental e volitivo e se caracteriza por sua arbitrariedade, a propensão se manifesta como sintoma predisponente da anomalia que reflete e promove o relaxamento circunstancial do juízo, ao qual incita a pronunciar-se sem o devido resguardo da razão, da observação, do pensar e do sentir da pessoa. A propensão manifesta-se esporadicamente, a deficiência, permanentemente. Uma e outra são, com freqüência, produto da própria herança, podendo neutralizar-se a primeira com relativa facilidade, ao passo que a segunda persiste indefinidamente se não é enfrentada com a firme determinação de vencê-la.

 

Propensões que freqüentemente atingem minha psicologia

            A propensão ao engano é uma das diversas propensões que me atingem. O indivíduo está propenso ao engano por dois estados de sua psicologia: quando confia no que lhe dizem sem se prevenir contra possíveis intenções ocultas de seus semelhantes ou quando tem seu entendimento turvado pela ambição. Contra esta tendência, a Logosofia aconselha que o ser não se entregue à ilusão e confie mais em si mesmo que nos outros.

            O estudo sobre a propensão ao isolamento foi facilitado pela lembrança de uma época de minha vida quando, ao chegar em um novo colégio, não conseguia fazer novas amizades, então, utilizei o isolamento como meio de imunidade social, ou seja, sentia-me segura em saber que ninguém me faria mal se não me conhecesse. Com o passar do tempo, no entanto, o medo foi desaparecendo e fui fazendo amigos que guardo até hoje.

            Creio que a maioria das pessoas tem propensão ao fácil quando se deparam com algum problema. No entanto, ela tira a força de vontade do ser, impedindo de buscar uma solução mais vantajosa.

            Vejo-me propensa a discutir quando um semelhante e eu temos que chegar a um consenso, mas possuímos diferentes pontos de vista. Neste sentido, a discussão assume um caráter positivo. Todavia, ao sentir o peso de acontecimentos desagradáveis, os quais estão fora de meu controle, sinto-me muito propensa ao desespero. Gostei da solução que o autor dá contra ela: pensar que o problema poderia ter sido muito maior, assim dominando esses estados que abatem o ânimo e quebrantam a moral.

No entanto, pude perceber que as propensões não só que atingem individualmente alguém, como também algumas que podem ser causadoras de grandes problemas mundiais, tais como a propensão à dissimulação, pois em um mundo extremamente materialista, no qual as pessoas têm seu valor de acordo com suas posses, como o que é perecível e efêmero, há muitos seres que vivem lutando para manter uma falsa vida, aparentemente perfeita; e a prometer o que está além de suas possibilidades reais, conduta vista nitidamente neste ano eleitoral, na qual alguns candidatos prometem resolver todos os problemas do país somente para serem eleitos, sem ter real consciência da responsabilidade adquirida ao se fazer uma promessa.

 

Considerações finais

            Concluí, no final desta leitura, que o homem deve buscar, a todo momento, ingressar e permanecer em um processo de evolução consciente, uma verdadeira batalha contra as propensões que venham atrapalhar sua vida, pois estas podem lhe gerar graves deficiências psicológicas.

        Ao fazer uma auto-análise, notei o quanto é difícil, porém necessário, apontar minhas próprias falhas. O enunciado socrático “Conhece-te a ti mesmo” me soa, agora, mais complicado; porém de importância sem igual. Mesmo porque, na Grécia clássica, os filósofos faziam maravilhosas constatações, mas não ensinavam objetivamente o ser a realizar em si mesmo este processo. Eu desconhecia um método que me permitisse começar a realizar uma evolução individual assim tão pertinho... que me tocasse tanto a razão e a sensibilidade. Deste modo, creio que este livro marcará o princípio de uma longa estrada, que me levará, através do processo de autoconhecimento, a um nível mais alto de desenvolvimento profissional, pessoal e, acima de tudo, espiritual. Espero realizar, pelo menos, uma parte da grande trajetória nesta minha pequena vida.

 Isabelle Saleme Fernandes

2002.2

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:

  

1. PECOTCHE, Carlos Bernardo González. Deficiências e propensões do ser humano. 9ª ed. São Paulo: Editora Logosófica, 1999 (página 12).

 

2. PECOTCHE, Carlos Bernardo González. Deficiências e propensões do ser humano. 9ª ed. São Paulo: Editora Logosófica, 1999 (página 18).