José Luiz Alcântara critica a transformação do jornalismo
JORNALISTA COM 28 ANOS DE CARREIRA FALA SOBRE GLOBALIZAÇÃO DA NOTÍCIA
O chefe da redação da sucursal Rio do jornal Estado de São Paulo, José Luiz Alcântara, deu uma palestra para os alunos de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC – Rio) sobre o futuro da mídia impressa. Alcântara falou sobre as transformações que presenciou em seus 28 anos de profissão e criticou o jornalismo de hoje afirmando que, pela influência da globalização, perdeu muito em qualidade.
- Os jornais são vistos pelos seus donos como uma empresa qualquer. Não é problema específico da imprensa, é do mundo globalizado: redução de pessoal, trabalho mais apressado (em tempo real), produção em série para faturar mais. Na verdade, o que aconteceu foi a vitória da área industrial das empresas em cima das redações, que agora fecham mais cedo, para estar mais cedo na rua e vender mais. Comparando com outras épocas, isso comprometeu em muitos aspectos o jornalismo, principalmente na qualidade da informação – afirmou.
Segundo o jornalista, antigamente o repórter podia trabalhar melhor a matéria do que hoje.
- Tendo que fazer duas, três pautas por dia e, paralelamente, apurar a matéria, que será publicada no domingo, além de ter capacidade de escrever um texto que possa ser mandado direto para a impressão (por não haver mais a figura do copydesk), e, às vezes, trabalhar até como diagramador, o repórter não tem tempo para se aprofundar muito em um só assunto.
Alcântara, que começou sua carreira como repórter do Jornal do Brasil (JB), no início dos anos 70, acha importante a valorização do texto ousado, a concorrência saudável pelo lead original e as belas fotos e disse que esses foram os pontos que deram durante muitos anos a liderança de mercado ao JB. No entanto, revelou que a criatividade é algo em extinção hoje em dia.
- Atualmente, encontra-se um texto rápido, correto, mas muito pouco ousado. A televisão (em especial o Jornal Nacional) e a Internet massacraram os jornais, orientando o que vão publicar e tornando-os muito parecidos. A Internet é a “tragédia” da imprensa. O que se copia de matérias é impressionante. Alguns jornais acompanham o que acontece pelos sites ou pelo noticiário da CBN e, às vezes, copiam as notinhas sem mudar nada. Falta apuração da notícia – criticou.
Embora tenha defendido os jornais escritos dizendo que fornecem uma análise mais completa, Alcântara admitiu que também há informação nos sites. No entanto, lembrou que muitos portais de notícias da Internet já entraram em crise devido ao pouco retorno financeiro e de público, podendo ser resultado da falta de publicidade e qualidade.
Segundo ele, a experiência profissional que mais marcou sua trajetória foi o processo de reforma do jornal O Dia. Quando chegou ao jornal, em 1987, sofreu resistência das pessoas que já trabalhavam lá, pois pensavam que os jornalistas que estavam chegando eram elitistas (a maioria vinha do JB) e levariam o jornal à bancarrota. Alcântara disse que naquela época, por ser um veículo muito popular, O Dia tinha fama de sensacionalista, sendo caracterizado por manchetes muito “sanguinolentas”.
- Basicamente, o jornal sempre destacava os escândalos com pessoas ricas e famosas, a editoria de esporte enaltecia o Flamengo, a página sindical destacava o funcionalismo público e os problemas dos bairros. As editorias internacional e do Brasil eram simplificadas – lembrou.
Como assistente da diretoria para novos projetos do jornal O Dia na época da reforma, Alcântara disse que decidiram continuar fazendo um jornalismo popular, mas formam reduzindo o sangue aos poucos e acompanhando os resultados das mudanças por meio de pesquisas. Depois disso, veio a reforma gráfica e a informatização da redação.
- Antes, era uma baderna gráfica. Criamos editorias e dividimos as páginas. O processo foi muito longo, durou oito anos, pois alguns mitos do jornal tiveram que ser derrubados.
Embora tenha deixado duas faculdades pela metade, Direito e Jornalismo, Alcântara defende a tese de que o curso de Jornalismo devia ser uma extensão universitária, como se fosse uma pós-graduação, pois acredita que a pessoa aprende mesmo é dentro da redação de jornal, já que a faculdade é muito teórica. O que o jornalista considera como fundamental para a formação de bons profissionais é a leitura, o que não vê nos profissionais de hoje em dia.
- A nova geração de jornalistas é correta tecnicamente, rápida, trabalha muito bem com informática, mas tem pouco estofo cultural. Um bom profissional deve ler, se informar, ir ao cinema, procurar saber de tudo, principalmente de cultura, literatura e cinema nacional. Quanto mais informação o repórter tiver, melhor será a apuração da matéria, pois poderá dar outro enfoque, saindo do lugar comum – disse.
Isabelle Saleme Fernandes