O furo no Jardim Botânico
“Tentarei relatar os fatos com mais proximidade da realidade possível, como me foi pedido pelo detetive Ricardo Mello. No entanto, minha narrativa pode conter algumas lacunas, por causa do meu forte envolvimento pessoal com o caso.
Minha esposa, Ana Luísa Toledo, sempre foi uma mulher decidida, principalmente quando o assunto era trabalho. Jornalista do Notícias do Rio de Janeiro séria e preocupada com a ética, ela sempre preferiu dar prioridade à veracidade da história do que aos possíveis “furos de reportagem”. Por isso alcançou o reconhecimento dos melhores jornais de todo o mundo e foi eleita pelos leitores a repórter em atividade de maior credibilidade do Brasil.
O prestígio profissional de Ana causava medo aos grandes poderosos, pois se encontrasse falhas em sua conduta e as pudesse provas certamente a opinião pública logo ficaria ciente e a derrocada dos culpados estaria próxima. Exatamente por isso, muitas vezes nossa família foi ameaçada de morte caso alguma matéria fosse publicada. Ana nunca deixou de dar nenhuma manchete, mas, graças a Deus, ninguém conseguiu cumprir as promessas. O clima de insegurança, por diversas vezes, atrapalhou um pouco o nosso relacionamento e o com nossos dois filhos: Pedro e Carolina.
Certa vez, Ana ficou sabendo de um desvio de cem milhões de dólares, feito pelo ministro da Saúde, Felipe de Azevedo. Antes mesmo da reportagem ser terminada, várias cartas anônimas contendo antraz foram entregues na redação do jornal e em nossa casa. No entanto, chegando às bancas, nada de mais grave aconteceu.
Uma outra: ao descobrir e publicar que a Virtua Brasil contratou cerca de 350 hackers para criar novos vírus de computador e espalhá-los pelo mundo todo, a fim de vender mais unidades da nova versão do programa anti-vírus. Coincidência ou não, nosso computador pessoal (no qual estavam arquivadas muitas provas para novas denúncias) e os de toda a imprensa nacional foram contaminados com vírus irreparáveis.
O pior de todos os casos foi quando o presidente da Companhia Nacional de Petróleo, Eduardo de Castro, foi acusado por Ana de ser o culpado pelo derramamento na costa Leste do país. Segundo a reportagem, ele teria dado ordens para construção de navios petroleiros mais fracos e para que as viagens fossem feitas com velocidades superiores às permitidas. Dias depois da matéria publicada, nossa casa foi assaltada e nossos filhos foram feitos de reféns por, aproximadamente, 6 horas. Eu chamei a polícia, que conseguiu prender os bandidos e o mandante, mas as crianças ficaram traumatizadas durante muito tempo. Mesmo assim, Ana continuou a atacar a companhia e a Eduardo até que ele renunciou e foi preso, e o problema resolvido.
Apesar de viver correndo alguns riscos, nossa família era unida e muito feliz. Tínhamos amigos que freqüentavam nossa casa regularmente, dos quais gostávamos muito. O casal Carlos e Natália Lima eram os mais próximos. Ana conheceu Carlos ainda na faculdade e, depois de namorarem por dois anos, ficaram muito próximos até que concluíram os estudos e se afastaram. Muito tempo depois, durante um jantar da A.I. Eletronics do Brasil, empresa da qual sou o engenheiro responsável nacional, ao se reencontrarem, já casados, reataram a intensa amizade. Carlos é um analista de sistemas muito simpático e brincalhão, já Natália, sua esposa, é uma famosa pintora. Logo que a conheci, a achei muito amável, mas, com o tempo, ela começou a ficar distante e séria demais – parecia que algo a incomodava.
Na época, pensei que fosse por causa da amizade entre Ana e Carlos: como eles sempre iam almoçar juntos, ela poderia estar com ciúmes infantis... Não dei crédito: meu casamento era bem sólido. O tempo foi passando e percebi que Natália se aproximava cada vez mais de mim: conversávamos muito, mas nunca ultrapassamos o limite de simples “conhecidos”.
Aos domingos, íamos sempre à missa e, depois, à casa de nossos pais, alternando os de Ana com os meus. As crianças adoravam brincar com os primos e nós, conversar com a família. É claro que minha esposa atraia as atenções e, diga-se de passagem, a inveja de muitos. Todos queriam saber sua opinião sobre os mais diversos assuntos e ela, sempre solícita, mostrava o que pensava, sem atacar o ponto de vista alheio. Confesso que percebia certo rancor nos olhos de algumas pessoas que se aproximavam de “Ana Luísa Toledo”, mas ela não se importava, pois sabia que, mesmo realizando o seu trabalho da melhor forma possível, não poderia agradar a todas as pessoas.
Mas, mesmo tendo essa consciência, Ana não andava bem. Sempre correndo de um lado para outro da cidade, tinha uma expressão de preocupação que nunca antes tinha visto em seu rosto. Alguma coisa a aflingia e ela não queria me contar o que era...
Uma noite, liguei para a redação do Notícias do Rio de Janeiro para falar com Ana. Ela me disse, rapidamente, que ia demorar a chegar em casa, pois estava muito ocupada com um “furo” que deveria publicado no dia seguinte. Então, coloquei as crianças para dormir e acabei caindo no sono também, afinal, já me acostumei com a (falta de) rotina dos jornalistas.
No dia seguinte, logo pela manhã, notei que Ana não havia dormido em casa. Fiquei preocupado – isso nunca tinha acontecido antes! – e liguei para a Redação do Jornal. Me informaram que ela havia deixado o trabalho por volta de duas horas da madrugada – horário em que acabou de redigir a reportagem – dizendo que iria para casa dormir um pouco. Ao ouvir a informação, o desespero bateu em mim. Pensei que ela poderia estar correndo risco, por causa da nova reportagem, então, pedi a uma vizinha que ficasse cuidando das crianças enquanto eu iria procurar Ana.
Não demorou quase nada para eu a encontrar. Quando fui à garagem do prédio onde morávamos pegar meu carro para procurá-la, vi Ana estirada no chão, ao lado de seu veículo, ainda com a porta aberta. O sangue era abundante em todo o corpo, principalmente na cabeça. Parecia que havia levado um golpe por trás. Algumas das coisas que ela sempre tinha à mão haviam desaparecido: disquetes contendo informações de boas fontes; agenda na qual guardava todos os seus compromissos; relatórios sigilosos; e telefone celular.
A partir daí, ficamos (eu e meus filhos – agora, órfãos de mãe) chocados e temo não poder dizer mais nada. Só desejo que investiguem e achem logo o culpado de um crime tão brutal, que fez cumprir-se muito cedo o juramento feito por nós há anos, em frente a um padre, de estarmos juntos até que a morte nos separasse...
Guardo minhas suspeitas.”
Marcos Toledo
Após ler o relato algumas vezes e muito pensar sobre todos os indícios que havia percebido, o detetive Ricardo Mello chamou em seu escritório Marcos; alguns amigos, como o casal Lima; e a família da vítima, além de algumas pessoas atingidas por suas reportagens reveladoras.
Quando todos chegaram, começou o detetive:
- Após ler a carta do senhor Toledo, com todas as suas suspeitas, cheguei a uma conclusão...
Neste momento, Marcos olhou fixamente para Natália, que olhava para Carlos.
E o detetive continuou:
- Há algumas lacunas deixadas pelo senhor Toledo em seu relato. Então, vou contar-lhes a verdadeira e completa história de Ana Luísa Toledo...
Todos os olhares se voltaram para ele:
- Ao que parece, a senhora Toledo era uma mulher muito forte, que se envolveu profundamente com coisas muito perigosas em função de sua ética profissional e compromisso com a sociedade. E, de acordo com os depoimentos, não teve medo em momento algum das ameaças feitas pelos poderosos, por causa de suas denúncias. No entanto, o que ela não contava é que teria que enfrentar também seus grandes “amigos”...
Durante muito tempo, pensou-se que a jornalista tinha um relacionamento um pouco maior do que o de simples amizade com o seu amigo, o senhor Lima...
- Mas que absurdo! – disse Carlos – Eu não preciso ficar aqui ouvindo estas asneiras...
- Posso continuar? – perguntou o detetive, logo emendando – Este foi o pensamento da senhora Lima e do senhor Toledo no princípio. No entanto, o que acabou realmente acontecendo foi que, de tanto conversarem sobre a possibilidade de estarem sendo traídos, eles acabaram se aproximando e quem teve um envolvimento maior do que amizade, ou “cortesia de conhecidos”, foram eles.
- O que o senhor está tentando insinuar?! – perguntou Natália, gravemente.
- Não estou insinuando absolutamente nada – disse Ricardo –, estou afirmando tudo... Como diria Berman “tudo o que é sólido desmancha no ar”, foi assim que o casamento dos Toledo se desfez, no ar...
A relação começou a ficar perigosa. A senhora Lima e o senhor Toledo deixavam vestígios cada vez maiores de seu relacionamento, o que provocou suspeitas no senhor Lima, que logo alertou a senhora Ana Luísa. Por isso é que iam almoçar tantas vezes juntos. Eles combinaram não revelar as suspeitas até que tivessem certeza de tudo. Mas o senhor Lima acabou quebrando a promessa durante uma discussão com sua esposa.
Na condição de famosa artista, Natália Lima ficou com medo de que tudo viesse a ser revelado e foi logo contar ao seu amante. Já desconfiado de que Ana Luísa teria descoberto algo a respeito da avaliação errada que havia emitido propositalmente, por interesses pessoais, para a empresa na qual trabalha, Marcos Toledo, depois de muito pensar, resolve fazer alguma coisa, pois ele e sua amante não poderiam ter suas reputações abaladas caso algo acontecesse.
O crime foi muito bem premeditado. Ao saber que a vítima ficaria trabalhando até mais tarde, e imaginando que a reportagem seria sobre o laudo falso emitido, o senhor Toledo mandou a sua amante ficar esperando a repórter sair da redação do jornal. Ela obedeceu: ficou dentro de um carro alugado (no nome de uma amiga) esperando a noite inteira na rua Jardim Botânico, em frente ao prédio. Quando a senhora Toledo saiu, em seu carro, por volta de duas da madrugada, Natália Lima ligou para o mandante, para que ele se preparasse.
Sabendo que a garagem ficava totalmente vazia – só havia um porteiro na frente do prédio onde moravam -, o assassino ficou esperando a vítima perto do portão, vestido de lixeiro. Quando ela estacionou e saiu do carro, ele veio por trás e deferiu três golpes com um bastão de ferro na cabeça de sua esposa. Ao verificar que estava realmente morte, pegou alguns objetos a fim de incriminar inimigos poderosos da profissional e os jogou no incinerador de um edifício vizinho, dando a entender que havia sido queima de arquivo.
Ao terminar seu “serviço”, pegou o elevador e – pasmem – foi para casa, dormir. Queria se preparar bem para a cartada final no dia seguinte: ele mesmo acharia o corpo da “mulher que tanto amava”, e mostraria a todos que só a morte poderia separá-los...
- É impressionante!!! Hahaha... Como conseguiu descobrir tudo isso? Era um crime perfeito! – perguntou Marcos.
- Sou um detetive com anos de experiência. Além de sempre checar a autópsia, apurar as provas e ouvir as testemunhas, presto mais atenção à maneira como as pessoas dizem as coisas do que ao dito, e tento pensar como a mente de um assassino imaginaria as coisas.
Mas o mérito não é somente meu: o senhor e sua cúmplice cometeram erros primários. O pior deles: esqueceram que, trabalhando há anos com reportagens investigativa, Ana Luísa Toledo tinha muita influência e já havia providenciado o grampo telefônico dos seus aparelhos celulares. A polícia já estava em alerta para protejê-la, caso fosse necessário. O único erro da vítima foi ter se esquecido de avisar a que horas deixaria a redação naquela noite, para que uma viatura a acompanhasse até sua casa. Mas, fiquem tranqüilos: amanhã é outro dia...
Neste momento, vieram os policiais e levaram Marcos Toledo, que estava fora de si, rindo com aparente desequilíbrio, e Natália Lima, que chorava desesperadamente.
Na manhã seguinte, os principais jornais, excepcionalmente, chegaram ao Presídio Municipal do Rio de Janeiro: lado a lado, duas matérias especiais – “Descobertos os assassinos de Ana Luísa Toledo” e “Motivo do crime foi corrupção”.
Isabelle Saleme
2003.1