O herói trágico em "Matrix"

        O filme Matrix é um ótimo ponto de partida para se refletir a questão das tragédias gregas, nas quais a figura do herói é central, pois representa a arte, o homem. Podemos abordar Matrix, também, como a história do herói mais importante da fé Ocidental, Jesus (nome dito por diversas vezes no decorrer do filme).

        O personagem principal da história está dividido em entre dois mundos: o mental (dos deuses) e o “real” (humano) – deixando claro que a palavra encontrada entre aspas terá uma posterior explicação. Ele tem dupla identidade: Thomas Anderson (rapaz correto que trabalha para uma conceituada empresa de informática) e Neo (nome escolhido por ele mesmo para “trabalhar” à noite, como hacker).

        Os dois mundos são separados, tendo sua conexão feita através de impulsos eletrônicos, já que toda a estética do filme é a do computador. Num certo momento, a separação entre essas duas “dimensões” a ficar problemática (Neo não sabe se está dormindo ou acordado).

        “O que é Matrix?” – esta é a pergunta que leva nosso herói a um questionamento e faz com que ele siga sua intuição, sem saber para onde (quando Trinity manda que ele siga o coelho branco, ele o faz). Mas quando se confronta com seus medos (se questionando porque estas coisas estavam acontecendo logo com ele, pois não havia feito nada – sempre as pessoas caem nestas perguntas quando se encontram em situações complicadas), ele acaba hesitando se entregar ao destino como deve ser, sem reservas.

        Mas, ao pensar um pouco sobre a vida que tem, sem nenhuma liberdade, percebe que deve aceitar o desafio e ir contra os agentes da Matrix (com sua linguagem de formulários) que controlam todos os cidadãos.

        O herói passa por um Portal para se encontrar com Morfeu (= deus grego do sonho/sono), que, assim como o Zaratustra nietzschiano, é perseguido por tentar revelar a verdade para as pessoas.

        Morfeu explica a Neo que a Matrix é um mundo colocado na frente das pessoas para esconder a realidade (que somos escravos do sistema). No entanto, não se pode entender a Matrix por “ouvir falar”, ela tem que ser sentida.

        Chega a hora de Neo fazer sua escolha: se pegar a pílula azul, esquecerá de tudo e será reenviado para a Matrix; e se pegar a pílula vermelha, irá para o mundo real, e sabendo a verdade, lutará contra a Matrix.

        A dúvida de Neo é mostrada através dos óculos de Morfeu: numa das lentes ele hesita em escolher; na outra, ele pega a pílula vermelha.

        Neo, finalmente, escolhe a vermelha e, resvalando para a moira, tem um jumping, um salto para a realidade, que tem um conceito diferente do que tinha antes: a Matrix é o sonho e a nova dimensão é a realidade (quem vive na Matrix, está sendo enganado, tem a sensação de que algo é real, mas não o é). A mudança de mundo é feita pela metáfora do espelho, que não só reflete a imagem de Neo, mas também é a porta de entrada para a consciência dele.

        As cenas do novo nascimento de Neo (na nova realidade) representam também uma espécie de morte para a vida que ele levava na Matrix. A expressão de dor do nascimento já foi explorada antes por Grof, S. quando diz que o ser humano já nasce sofrendo (as dores do parto não seria só na mãe, o bebê também passaria por momentos muito difíceis). Toda mudança traz sofrimento. Na seqüência fica claro que a mente e o corpo são duas faces da mesma moeda: o corpo é a parte sensível da mente e a mente é a parte iluminada do corpo.

        Os treinamentos de Neo são um processo de reconstrução total. Por exemplo, quando ele pergunta porque seus olhos doem, Morfeu responde que é porque ele nunca havia os usado antes. Tudo agora é diferente para Neo: o tempo (na Matrix, o ano é 1999, no mundo real é 2010), os valores (dinheiro, por exemplo) e até a imagem dele mesmo (quando está conversando com Morfeu na Matrix seu corte de cabelo é diferente: por causa de sua auto-imagem: modo como o “eu” se vê).

        Morfeu revela a Neo que o mundo havia sido tomado por máquinas extremamente avançadas (inteligência artificial) e a energia que as movia era a energia do corpo humano. Então, os seres humanos não nasciam mais do modo normal, eram cultivados em extensas "plantações" nas quais eram armazenados em casulos neurais, vivendo em suas mentes uma vida falsificada (uma simulação) e servindo de pilha para manter o sistema. Para conseguirem manter os seres humanos aprisionados nestes casulos, as máquinas desenvolveram um software, que denominaram de Matrix. No software as pessoas têm a ilusão de estarem vivendo uma vida completamente normal (uma simulação de vida), mas não é verdade, elas estão sendo dominadas e controladas por computadores que sugam sua energia constantemente. Podemos perceber a Matrix como uma civilização simulada com regras, jogos de poder e leis estabelecidas.

        Para acabar com esta dominação, surge um grupo de rebeldes que conseguiram escapar do sistema Matrix (o filme não mostra exatamente como eles conseguiram escapar). Estes rebeldes se dedicam a salvar a humanidade da desgraça das máquinas.
Morfeu (o líder do grupo) ainda diz para Neo que ele é o predestinado, uma espécie de mensageiro cibernético que viria para salvar o Mundo da desgraça das máquinas.

        A partir daí, Neo precisa compreender porque é o escolhido, segundo Morfeu, e se libertar da idéia que tinha de real. O treinamento serve para despertar o conhecimento já pertencia a ele, ou seja, é necessário para que a mente perceba que já sabia (ligado ao conceito de Doutrina da Reminiscência, de Platão, no qual a alma já sabe de tudo, apenas esqueceu). Morfeu manda Neo não pensar, fazer. Nesta parte, o mais importante é libertar a mente (“free your mind”), pois ela torna tudo real na medida que está unida ao corpo (são inseparáveis).

        A lógica expressa em Matrix é de um sistema binário (sim ou não); já na outra dimensão nem o bem nem o mal podem ser destruídos, eles têm que conviver juntos.

        Morfeu leva Neo para consultar o Oráculo (uma espécie de guia, que mostra o caminho a ser seguido), no caminho, nosso herói vê sua antiga vida passando pela janela do carro. Ao chegar, percebemos a figura de Tirésias (velho cego que vê o futuro) e a de uma criança que diz a Neo frase-chave do filme, o impressionando, enquanto brinca de torcer uma colher sem tocar nela: “não existe colher”. Ao passar por mais um Portal, a fim de falar com o Oráculo (e se decepcionar com ele – figura de uma mulher fazendo biscoitos), Neo, que entra em uma nova fase de seu treinamento, pensa que ele não é o escolhido. Mas, na verdade, o Oráculo só diz a ele o que precisa ouvir para evoluir. A citação “conhece-te a ti mesmo” é uma ótima opção para percebermos que, na verdade, todas as antigas crenças devem ser devolvidas a Neo para ele acreditar em si mesmo.

        O deja vú é explicado como sendo uma falha (no tempo – importante na Matrix mas não fora dela) da Matrix, é um rompimento (como se a mente estivesse conectada nos dois mundos).

        É importante ressaltar que os agentes da Matrix (que podem ser entendidos como a civilização, os valores, as leis..., tudo o que acreditamos e que introjetamos, sem nem perceber) são sempre iguais (qualquer um pode ser o Agente Smith) e que dentro dela, ninguém é capaz de vencê-los – tem ordens: “Find them and destroy them” (por exemplo, Morfeu é imbatível no mundo real, no entanto, só continua vivo na Matrix por conta de seu treinamento bem feito e de sua resistência), por isso sempre dizem “se vir um agente, corra!”. Podemos dizer que eles e a Matrix são a mesma coisa.

        O traidor (comparado com Judas, por ser do grupo do escolhido), Cypher, diz que só não matará Neo se um milagre acontecer, mostrando que ele é o escolhido (um milagre é algo absolutamente normal dentro das possibilidades). E um ocorre. Neo é o predestinado.
Sempre que o grupo precisa aprender algo (exemplo: quando Trinity precisa pilotar um helicóptero), através de um telefone e de um software, a informação é ativada na mente da pessoa (que já sabia, apenas tinha “esquecido”). Podemos relacionar isso com a Doutrina da Reminiscência, já citada acima.

        É diferente conhecer o caminho (intelectualmente) e percorrê-lo. Neo só descobre que é o escolhido quando age. Quando o agente o chama de “Mr. Anderson” e ele diz que seu nome é “Neo”, podemos dizer que ele começa a acreditar e define sua identidade.

        Na luta de Neo com os agentes, cada parte tem um segredo: os agentes são imortais e querem matar Neo, mas se Neo morre, ele, como todo herói, “cumpre sua missão” e acaba com os agentes.

        O filme começa e termina no “Hotel Coração da Cidade”, como um ciclo, no apartamento 303 (ligado a idade de Jesus ao morrer, 33 anos), onde Neo morre.

        Trinity revela que o Oráculo disse que ela se apaixonaria pelo “dead man”, e passa vida (como num mito) através do beijo. Este é o momento da ressurreição do escolhido. As balas dos agentes não mais o atingem, consegue vê a codificação da Matrix, entra no corpo do agente: Neo tem todo o poder e vence.

        O filme termina com Neo ao telefone falando sobre um mundo no qual tudo é possível, pois a mente e o corpo do homem são unidos (o homem tem o controle).

        Em Matrix, como em toda tragédia, o herói precisa morrer, para se tornar mito/lenda e ser eterno. A tragédia do herói termina sempre com sua morte (o ciclo se fecha, faz parte, mas não como um ponto final). O novo ensinamento, a nova visão de mundo só é percebida pelos outros depois da morte do herói, quando penetra em nossa alma, pois a convivência é algo difícil: só percebemos a luz dos homens iluminados quando eles morrem.

        Todos nós somos os escolhidos, estamos na condição de herói, mas temos que descobrir o que fazer, pois “se você não é um de nós, é um deles”, ou seja, se não ansiamos pela liberdade, acabamos sendo “agentes da Matrix”.

 

Isabelle Saleme

2001.2