Liberdade tem limite     

 

            Como o próprio nome já diz, hedonism club é um centro de lazer destinado aos que têm “tendência a considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade da vida”1, ou seja, é um lugar onde as pessoas poderão transar, com qualquer um, em público, na piscina, no bar ou na danceteria. Esta é a proposta do primeiro clube hedonista do Brasil, que será inaugurado no dia 30 de junho de 2001, em Guaratiba, Rio de Janeiro.

            A idéia já foi posta em prática na Jamaica, com os hotéis Hedonism II e III, nos quais a presença de turistas que buscam sexo sem compromisso é muito grande. A versão brasileira, segundo a organizadora do empreendimento, a advogada Dila Doris, está sendo financiada por um grupo turístico holandês que pretende ampliar o negócio mais tarde, através da implantação de franquias.

            Temos de convir que o assunto é polêmico. Os adeptos de tal “liberalismo” alegam que, assim como os animais, os homens também podem manter relações sexuais em quaisquer lugares e situações. Porém, tal atividade do animal é quase na sua totalidade programada, principalmente pelo mecanismo do cio: os dotes instintivos lançam macho e fêmea numa situação na qual os impulsos naturais os comandam, ao passo que a atividade humana é controlada pelo próprio indivíduo, pela sua cultura e pela sua tradição. Nesse sentido, podemos concordar com Chauchard quando afirma que o principal órgão sexual do homem é o seu cérebro (Snoek, 1981).

            Sendo assim, o tipo de “lazer” proposto por tais centros, que possuem muitos sócios, promove o sexo sem relacionamento amoroso, compromisso ou perspectiva de um vínculo mais duradouro. No entanto, isto costuma ser prejudicial aos participantes, pois transforma o sexo numa mera atividade física, algo desligado de valores éticos, já que é fundamentado na exploração de uma pessoa pela outra.

            Além disso, há um risco muito grande, tendo em vista o possível avanço epidêmico das doenças venéreas, na medida que o uso de preservativo não é obrigatório, caso seja assinado um termo de responsabilidade. Apesar das diversas concessões, o consultor do clube, Eduardo Leal, garante que o espaço estará fechado para garotas e garotos de programa. Porém, como seria feita tal proibição?

            Na realidade, a liberdade para praticar qualquer ato se torna maior a cada dia, pois as pessoas não mais são “castradas” pela sociedade, como eram antigamente (antes da Revolução Sexual dos anos 60 e 70), ficando a critério de cada indivíduo o destino que sua vida irá ter: assumir tal liberalidade como certa ou pensar antes de cometer qualquer ação da qual possa se arrepender mais tarde. Logo, podemos perceber que estamos no tênue limite entre a liberdade e a orgia.

 

Isabelle Saleme Fernandes

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

-         Jornal O Dia: “Sexo a qualquer hora”, 03/06/2001.

-         MALINOWSKI, Bronislaw. Sexo e repressão na sociedade selvagem: Petrópolis: Ed. Vozes, 1973.

-         SNOEK, Jaime. Ensaio de ética sexual: São Paulo: Edições Paulinas, 1981.