Da exposição ao culto - como transformar nosso "valor"?
“O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência”.
(Walter Benjamin)
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esde o início da Modernidade, princípio do século XIX, pudemos observar uma radical mudança na vida das pessoas, que se deslocavam do campo para a metrópole, em virtude de uma série de novos fenômenos, tais como a industrialização e a urbanização. Com o avanço tecnológico, o nosso mundo capitalista se torna bem mais dinâmico, surgindo, então, a idéia de Indústria Cultural, um sistema que usa como pretexto a democratização da arte, mas, na verdade, esconde um grande caráter mercadológico, objetivando o lucro a partir do consumo das massas, consideradas incultas e, por isso, passíveis de exploração.
Essa ideologia torna muito comum a não percepção da importância de pequenas situações que fazem parte do nosso cotidiano, simplesmente por já estarmos acostumados a elas, e acaba desviando os meios de comunicação de sua principal finalidade: proporcionar informação e lazer.
Na teoria, os veículos de informação são instituições sociais que servem à sociedade, ao reunir, escrever e distribuir as notícias do dia, logo, sua liberdade de expressão e de discussão deveria ser mantida. Entretanto, como sofrem uma enorme pressão de forças autoritárias, já que existem mecanismos sutis (apropriados pelos grupos de interesse) nas relações entre a imprensa e o poder, o livre trânsito de informações é dificultado, o que pode impedir o fato de chegar ao domínio da opinião pública.
Deve-se saber, também, que temos uma ilusória idéia sobre o que vem a ser liberdade. Muitas vezes não nos damos conta de que ela não constitui um espaço confortável, pois na sociedade há uma grande tendência a padronizar as formas e discriminar o “diferente”. Então, ao percebermos a dificuldade da busca pela consciência individual, podemos acabar desistindo de construir algo singular e, perante a grande abundância de discursos prontos existentes, fica mais fácil reproduzir o já dito por dois motivos: comodismo ou imposição do sistema.
Torna-se claro o paradoxo existente no papel do jornalista, pois embora trabalhem com um produto cultural de segunda categoria, confrontado com outros, melhor conceituados, que partem da tentativa de construção de sentidos próprios por parte de seus autores, como uma obra literária, uma tese sociológica, um objeto de arte, etc; são os desencadeadores de diversos efeitos na sociedade. Sendo assim, nota-se uma distorção do compromisso social que esse profissional teria com a audiência, pois o conteúdo processado pelos meios de comunicação não está ligado a uma dinâmica cultural mais ampla, ele se restringe a uma forma explícita da própria engrenagem da cultura de massa, que é nivelada por baixo.
Somando todos estes aspectos, poderíamos dizer, com uma visão bastante apocalíptica, que muito do produzido se torna comercial na conjuntura capitalista da indústria de cultura de massa: jornalistas resolvem “vender” suas informações, do modo estipulado pela empresa para a qual trabalham, a cuja filosofia não importa se a audiência está pensando sobre o que lêem ou não; e massa consumidora interessa-se em ler e depois “jogar fora”, nada de novo é acrescentado e tudo é descartável.
Percebemos que estamos numa sociedade na qual há um interesse muito grande pelo valor de exposição e um certo descaso pelo de culto (Benjamin, 1994), ou seja, a principal finalidade da massa é consumir as notícias e não refletir sobre elas, isto é, dizer que leu sobre um assunto vale mais do que pensar sobre ele e chegar a uma conclusão pessoal. Está aparente o simples desejo de “posse” de informação e não o de amadurecimento por meio dela.
Podemos concluir, então, que há duas alternativas para o profissional da área: seguir o modelo ditado pela indústria ou inovar, criando seu próprio estilo de escrever. Pensamos que a melhor saída seria tentar fugir do lugar comum por meio de seus próprios discursos, algo novo que poderia provocar um questionamento entre os leitores e uma possível mudança da parte deles. Pois “a minimização da autoridade do produtor cultural cria a oportunidade de participação popular e de determinações democráticas de valores culturais, ao preço de uma certa vulnerabilidade à manipulação do mercado de massa” (Harvey, 1993).
Embora sejamos obrigados a admitir que é uma solução um tanto utópica, todas as pessoas deveriam tentar reverter esse caráter “descartável” da notícia, saindo da inércia mental em que estão, na qual só ficam absorvendo, sem contestar, o já dito, e passar a construir algum pensamento próprio, podendo, desta forma, haver o fim da banalização dos meios de comunicação e o início da seriedade e respeito ao espectador.
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* Aluna de Comunicação Social da PUC – Rio
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: