As artimanhas de um ator capixaba

 

        O ator Charles Fricks, da Cia de Teatro Atores de Laura, indicado ao Prêmio Shell de melhor ator 2002 pela peça As Artimanhas de Scapino, conta, em entrevista exclusiva ao Palco Universitário, um pouco mais sobre sua vida e carreira.

1. Nome completo: Charles Fricks de Andrade

2. Local de nascimento: Cachoeiro do Itapemirim- E.S

3. Idade: 30 anos

4. Profissão: Ator e produtor de tv

5. Qual foi o seu primeiro contato com o teatro? A primeira vez que vi uma representação artística em um palco eu devia ter uns sete anos, eu acho. Era um espetáculo de dança feito pelos professores da minha escola. Fiquei fascinado com a minha então “tia” (Ângela) dançando e fazendo o papel de uma borboleta. Na mesma época, não sei se antes disso ou depois, participei de um jogral para as comemorações do Dia da Independência na minha escola. Acho que foi por aí que nasceu a vontade de “aparecer num palco”.

6. Como você começou a fazer teatro? Minha primeira peça foi, aos quatorze anos em Cachoeiro do Itapemirim, em um teatro amador, na minha escola.Passamos a ter aulas de teatro como um curso regular. Não queria mais saber de outra coisa. Tornou-se minha aula preferida, minha professora preferida, passei a adorar as manhãs de terça-feira.Depois de algum tempo, fui para os Estados Unidos e fiz intercâmbio cultural onde continuei fazendo teatro, e quando voltei para o Rio fiz teatro e comunicação. Montamos a peça TRIBOBÓ CITY, de Maria Clara Machado. Comecei a carreira fazendo o mocinho.

7. O que te levou a vir morar aqui no Rio? Teatro, principalmente.Vim para fazer a faculdade de jornalismo. E, ao mesmo tempo, estudar teatro. Queria ter um diploma de alguma coisa além de fazer teatro. Sabia que teatro não dava dinheiro em lugar nenhum. O que eu ignorava era que o jornalismo também não (risos). E estou trabalhando há seis anos em uma produtora de tv chamada “No ar Comunicação”.

8. Você acha que essa escolha por comunicação tem a ver com esse seu lado ator, por serem profissões tão próximas? Foi porque achava que as duas teriam muita coisa a ver, mas depois percebi que não eram tão parecidas assim.Eu vim para o Rio com essa idéia de fazer comunicação, tanto que também trabalho na produtora , gosto muito, acho divertido. Fazer faculdade no Rio foi só um pretexto para poder ficar perto do teatro.

9. Quais foram suas principais influências? Sou da geração que cresceu assistindo a tv. É claro que ícones da tv como Regina Duarte, Tony Ramos, Antônio Fagundes e tantos outros atores globais desse calibre ficaram no meu inconsciente de alguma forma. Mas naquela época não sabia como aquilo me afetaria. Hoje eu tenho” mais consciência sobre a arte de representar. Hoje sou influenciado por tudo: livros, músicas, quadros,fotos. Num processo criativo, em época de ensaios,o ator deve se alimentar de tudo um pouco .

10. Como foi seu ingresso na Cia de Teatro Atores de Laura? Entrei para a turma de teatro do Daniel Herz e Susanna Krüeger( diretores da cia) em março de 1994. Em julho eles me convidaram para substituir um ator que não poderia fazer uma mini temporada da peça CARTÃO DE EMBARQUE em São Paulo. Depois vieram ROMEU E ISLODA, DECOTE, A CASA BEM-ASSOMBRADA e O JULGAMENTO.

11. Como foi a fundação da Cia? Daniel Herz e Susanna davam aula na Casa de Cultura. No segundo deles na Casa, eles tiveram um grupo de alunos dispostos a fazer mais do que uma peça no final de ano. Assim surgiu a primeira peça da Cia: A ENTREVISTA com texto de Daniel e Bruno Levinson. Na época os atores eram todos alunos de teatro.Ivan de Albuquerque (saudoso ator e dono do Teatro Ipanema) assistiu a apresentação e convidou o grupo a fazer a primeira temporada da Cia fora da Laura Alvim.

12. Como é a relação dos atores e diretores (entre si) da Cia? Depende do processo. Em AS ARTIMANHAS DE SCAPINO tudo conspirava a nosso favor. O elenco era bem-humorado. Ensaiamos quase sete meses sem estresse.Tínhamos todo o tempo do mundo para estrear. O processo foi lento, como deve ser um processo de criação. Isso nos dá tranqüilidade para termos bom - humor, paciência, etc. Além do mais metade do elenco era recém-chegado.Ávidos por coisas novas. Essa renovação dentro da Cia é enriquecedora, mesclando os atores novos com os veteranos.A Cia é quase um casamento. Isso acarreta responsabilidades, pontos positivos, negativos, cobranças, amizade, cumplicidade, ceder, pedir, etc.

13. Qual o diferencial de pertencer a uma Cia de atores? Nós não temos patrão. Fazemos NOSSA peça, isto é, somos os produtores daquilo que acabamos de fabricar. É o nosso filho mesmo. Decidimos, todos juntos por votações, o que fazer com aquilo que criamos. Outro diferencial é que não precisamos estar sempre no mercado, pedindo emprego em alguma produção que está se juntando. Nada contra, também quero participar desses processos. Pessoas completamente diferentes, de criações diversas, influências das mais distintas, trabalhando junto. Isso também é muito enriquecedor.Mas sei que sempre posso contar com o porto seguro dos Atores de Laura. Sei que lá vou encontrar pessoas que pensam e fazem teatro de maneira muito parecida com a minha.

14. Você trabalha na Cia de Teatro Atores de Laura, você acha que para o teatro brasileiro é esse mesmo o caminho, os atores se juntarem, começarem a produzir e levar os espetáculos para o público? Sim, porque você se torna dono do seu trabalho, e para produzir em grupo é muito bom, ainda mais dentro da Cia porque os outros atores já te entendem e você já sabe o que os outros querem.

15. Como é feita a escolha das peças a serem encenadas e a distribuição dos papéis entre os atores da Cia? Sempre Daniel e Susanna. Eles nos conhecem muito bem e vice-versa, sabemos o que eles querem e eles também sabem o que estamos propondo, e isso é muito bom porque passa confiança para os atores. Em relação a escolha da peça: geralmente eles dão algumas opções. Nem sempre o que eles escolhem é o que a maioria quer fazer. Mas podemos optar por não participar de um espetáculo. Podendo participar de outra forma- divulgação, iluminação, produção, operação de som ou até mesmo “dando um tempo”na Cia para fazer outras coisas. Em relação aos personagens: todos os atores experimentam todos os personagens até que Daniel e Susanna escolham quem se encaixa melhor em determinado papel.

16. Como voe reagiu quando soube que seria “Scapino”? Não queria fazer o Scapino e sim o Gerôncio. Porque eu não conseguia formar uma imagem dele na minha cabeça. Durante os ensaios, o Daniel começou a me colocar sempre para fazer o Scapino. Fiquei preocupado, mas no final deu tudo certo.

17. A Cia surgiu na Casa de Cultura Laura Alvim. Atuar no palco em que tudo começou tem um gostinho especial? Claro que tem.A história da Cia se confunde com a Casa de Cultura. Tanto que até hoje as pessoas acham que nós fazemos parte da Laura Alvim.

18. A Cia de Atores de Laura está administrando o teatro Miguel Falabella. Conte um pouco sobre sua experiência. Quando fomos convidados pra administrar o Miguel Falabella, eu quase desisti da empreitada. Achei que não seria capaz de fazer aquilo. Não sei administrar nem as minha contas que dirá de um teatro do tamanho daquele. Mas como éramos um grupo de 9 atores da CIA na época , acabei topando e foi a decisão mais acertada que eu tomei. Hoje temos a visão do outro lado dos negócios. Sou a ponte entre  Teatro Miguel Falabella e as produções que nos procuram para entrar em temporada. Passei a entender melhor os problemas e dificuldades de se administrar um teatro. Todos nós que aceitamos administrar esse espaço, estamos aprendendo a ser melhores artistas mesmo fazendo, às vezes, trabalhos burocráticos.

19. Por que "As artimanhas de Scapino" foi a peça escolhida para comemorar os 10 anos da Cia? Daniel trouxe a idéia de montar um comédia . Esse era o desejo de todos os atores da CIA , montar uma comédia de verdade, assumido. Digo isso porque, na verdade, todos os nossos espetáculos eram bem humorados: Romeu e Isolda era composto por esquetes sobre os encontros e desencontros amoros do ser humano; Decote era baseado na obra de Nelson Rodrigues e recheado do humor negro rodrigueano. As artimanhas de Scapino  é uma comédia clássica de 1671 , um texto  com infinitas possibilidades de jogo cênico entre os atores. E pra completar, uma tradução primorosa de Carlos Drummond de Andrade. Aí é só soprar as velinhas e comemorar muito, né?!   

20. Você prefere atuar na comédia ou em outros gêneros? Me dou muito bem com a comédia, mas também gosto de textos mais “sérios”. Mas a reação da platéia é indescritível porque as risadas são ótimas.

21. Conte um pouco sobre a peça. Na ausência de seus respectivos pais, Otávio casa-se secretamente com Jacinta – uma jovem pobre com um passado misterioso – e Leandro apaixona-se por Zerbineta, uma cigana. Mas  os pais regressam antes do esperado com planos de casamento para seus filhos. Desesperados e precisando de dinheiro para manter o compromisso jurado às moças, os rapazes recorrem a Scapino, criado de Leandro, famoso por sua esperteza. Valendo-se de truques e artimanhas, Scapino cria situações engenhosas e engraçadíssimas para tentar arrancar dos velhos avarentos. Nessa montagem, a direção de Daniel opta por priorizar elementos típicos de commedia dell´arte como espaços para improvisações, movimentos estilizados e interpretações farsescas.

22. Na peça vocês se divertem muito fazendo, o que você mais gosta de fazer no espetáculo? Eu gostei muito da idéia do Daniel de fazer tudo aberto, levantar as coxias, você é capaz de ver os atores em cena e fora de cena também, aquecendo. E como espectador eu iria gostar muito de ver isso, acho isso um aspecto bacana da encenação que vale a pena ser ressaltado.

23. O que você acha mais confortável para o ator, trabalhar com um texto clássico ou com um texto contemporâneo? Eu acho que não deveria ser confortável nenhum dos dois casos porque o trabalho do ator é uma agonia, pois você tem que estar buscando coisas dentro e fora de você, estar estudando sempre. Se você esta muito confortável, alguma coisa está errada porque você tem que estar ansioso, no bom sentido, para estar sempre buscando o enriquecimento do personagem. Então eu acho que independe se é um clássico, um Romeo e Isolda, que é um texto da companhia super despretensioso, um texto jovem, em que sempre teria que ter uma busca de alguma coisa, e não ficar acomodado.

24. Nesses oito anos de Companhia de Teatro Atores de Laura, como você esta encarando esse sucesso do espetáculo “As Artimanhas de Scapino” que trouxe a indicação ao Prêmio Shell? Eu acho que é o melhor momento da Companhia, porque a peça “As Artimanhas de Scapino” é a que este sendo mais falada, tendo maior repercussão, então eu fico muito feliz de estar presente na Cia já que fiquei dois anos e meio parado antes da peça, e voltei agora ensaiando a peça sem saber qual era, o Daniel me convidou pela quarta vez e dessa vez eu aceitei. Estou muito feliz de estar presente na Cia junto com os meus amigos por essa indicação.

25. O que é ser indicado para o Prêmio Shell de melhor ator? No começo pensamos que fosse boato, mas quando confirmaram a indicação fiquei muito feliz porque já é uma vitória muito grande ser indicado, sei que é difícil ganhar, mas estou nas nuvens com essa indicação. Às vezes acho que é um ponto de mudança na minha carreira. Um divisor de águas - antes do Prêmio, depois do Prêmio. Mas às vezes acho que é tudo ilusório. Daqui a pouco ninguém  vai se lembrar se eu fui indicado ou se ganhei  esse ou aquele prêmio. Mas sem dúvida, ser indicado por um júri formado por   pessoas que vêm os melhores(e piores) espetáculos do Rio de Janeiro é o reconhecimento almejado por qualquer artísta. Fico louco só de imaginar que poderei estar concorrendo com Marco Nanini, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele entre outros.

26. Você vê alguma diferença na recepção dos críticos e do público com relação à peça? Não, dessa vez foi unanimidade(risos), ficamos muito impressionados e envaidecidos, porque as criticas foram excelentes, e saíamos como indicação do Jornal O Globo, Revista Veja, e, também, o público vai falar com a gente muito emocionado. Nunca tive um reação tão boa na estréia no Teatro Miguel Falabella, me lembro que foi uma das coisas mais lindas que já vi na minha vida até hoje, uma catarse.

27. Você tem interesse em trabalhar em televisão ou cinema? Tenho muito interesse em trabalhar com cinema. Estou aberto a convites. E televisão também é um veiculo bacana, eu fiz só uma participação com a Cia na “Chiquinha Gonzaga”, mas era fazendo teatro dentro da televisão, então é diferente,eu não sei como é a experiência em TV. Em cinema eu fiz dois curtas e gostei muito, e queria continuar porque tem uma linguagem muito interessante. A diferença é que em teatro você faz a obra e não tem a oportunidade de ver, e no curta tive a oportunidade de ver o que fiz e deixar isso eterno.

28. O que você tirou (e tira) do teatro que contribui para a sua vida, em geral? O teatro é o que eu sei fazer de melhor na vida. Não consigo me imaginar fazendo nada tão bem quanto faço teatro. Por causa dele estou começando a ser mais respeitado como artísta e, consequentemente, como indivíduo na sociedade.

 

Charles Fricks por Susanna Krüger

 

1. São muitos anos que um aluno leva num curso de teatro, é difícil não criar um vinculo afetivo com certos alunos devido à proximidade. Quando acontece como Charles Fricks, que está fazendo um grande sucesso com a peça “As Artimanhas de Scapino”, você sente que esse reconhecimento é um pouco seu também? Não. Eu sinto que o mérito é dele. Nessa ponte feita com os atores, você vê por tudo que ele está passando, está sempre ao lado, mas ao final a vitória é sempre dele, você é o melhor espectador, pois é aquele que vai saber tudo o que ele passou para chegar a ser o que é hoje. O diretor tem que ter a sabedoria de perceber que no momento em que estréia a peça, ela é do ator e do espectador, ele não é mais o dono daquilo. E o Charles, por estar nesse movimento hoje, é um vitorioso, é um mérito ganho só dele.

 

Por Bruna Neves, Fernanda Setrini e Isabelle Saleme

2002.1