O ceticismo de Machado de Assis

 

        Quando se analisa, com maior cuidado, a obra de Machado de Assis, é possível perceber alguns elementos que um leitor desatento, ou de pouco conhecimento, certamente não seria capaz de notar, já que são expressos muito sutilmente. É exatamente neste ponto que está a genialidade do autor: ele induz as pessoas a pensarem do modo que deseja e, muitas vezes, elas nem sequer percebem que estão sendo manipuladas.

        O presente trabalho tem por objetivo tratar de uma característica do texto machadiano: o ceticismo. Como base, comentaremos quatro de seus contos: “A cartomante”, “Igreja do Diabo”, “Teoria do Medalhão” e “O enfermeiro”.

         No primeiro deles, “A cartomante”, o leitor é envolvido pelo triângulo amoroso formado por Camilo, Rita e Vilela. Aqui, Machado veste a máscara de Camilo, personagem que se apaixona pela esposa de seu amigo. Ao apresentar um protagonista redondo, o autor sugere a possibilidade de mudança de opinião das pessoas diante de fatores externos: ao temer ser descoberto por Vilela, Camilo começa a acreditar em algo digno de sua anterior descrença, o misticismo, e vai consultar-se com uma cartomante. No entanto, o inesperado ocorre: a vidente erra o futuro e, com uma quebra catártica, o conto acaba, deixando o leitor chocado. No entanto, pode-se analisar a citação de Hamlet – “há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia” –, logo no princípio da narrativa, de duas maneiras: uma traição, já que soa como algo místico, e uma pista do trágico final, como conselho para não se confiar tanto nas aparências. Nota-se, no texto, o ceticismo em relação ao sobrenatural, descrença que uma pessoa tenha poderes especiais e possa adivinhar o futuro de alguém. A cartomante faz uso de artifícios para enganar as pessoas, simplesmente falando o que querem ouvir.

         Já em “Igreja do Diabo”, quando Deus diz ao anticristo que seu plano não funcionou por cauda da “eterna contradição humana” explicada através da metáfora das franjas, promove uma quebra no maniqueísmo, pois pode-se concluir que o homem não é totalmente bom nem mau, as duas partes convivem juntas em todas as pessoas. Sendo assim, a descrença machadiana está no próprio homem e nos valores que o regem. Segundo Deus esta contradição é eterna, ou seja, os indivíduos nunca conseguirão solucioná-la, e a sociedade nunca apresentará perspectivas de melhora.

         Em “Teoria do Medalhão”, a falta de fé é em relação à sociedade. Em um diálogo – o qual mais parece um monólogo, visto que só uma das partes manifesta sua opinião (autoritariamente) –, entre um pai (máscara de Machado) e um filho, fica exposta a inversão de valores de uma sociedade que privilegia a figura do “medalhão” – sujeito que não faz nenhum esforço mental e está sempre preocupado com a opinião alheia. Usando de profunda ironia, Machado mostra a realidade social da época e seu ceticismo em relação a qualquer mudança.

         No último conto a ser analisado aqui, “O enfermeiro”, nota-se a descrença religiosa. Uma das estratégias do texto é o uso do narrador-persongem, Procópio, com sua retórica: o enfermeiro conta uma história do assassinato cometido por ele, do seu ponto de vista, pouco antes de morrer. Isto suaviza o crime, e o leitor acaba sendo convencido de que o personagem não é tão culpado assim... A distorção da frase bíblica “bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”, extremamente irônica – já que deveria ser o oposto –, torna explícito o caráter cético de Machado quanto à justiça de Deus e dos homens.

         Logo, pode-se concluir, a partir destes exemplos, que o ceticismo é um traço muito marcante na obra machadiana, embora esteja disfarçado. E que a falta de fé do autor é em relação a tudo – ao homem, à sociedade, a Deus... –, não poupando praticamente nada nem ninguém.

 Isabelle Saleme Fernandes

2001.2